domingo, 18 de janeiro de 2015

O Vinho Novo é Melhor ou como confundir ênfases teológicas



Comecei a ler este livro por ter amigos próximos que comentaram como sua vida de fé fora transformada após sua leitura, como sua fé fora avivada e o que esperavam agora de sua caminhada cristã. Durante os excertos que farei sobre as passagens mais emblemáticas do livro comentarei uma coisa ou outra, deixando para o final mesmo minhas conclusões.

Comecemos pela ênfase que o próprio autor faz de seu livro: "a vida não precisa ser a entediante monotonia de fazer as mesmas velhas coisas dos mesmos velhos modos, todos os dias... Isso se você estiver disposto a arriscar-se a viver pela fé." (p. 15); e, o que expressou W. Blane Amburgy, "é um livro que desvenda o segredo da fé (...) e como ela opera em seu benefício, caro leitor.", junto com o comentário de Pat Robertson, "encontramos em Robert Thom uma conjugação do autêntico tesouro celestial com um autêntico vaso de barro."

Ele começa contando sobre um jejum que realizou para Deus prover a necessidade financeira de um projeto e conclui com o seguinte pensamento : "Fim um pacto com Deus de louvá-lo o dia todo, e a minha necessidade será suprida, porque Deus é o louvor de Israel." (p.17). Continua com suas experiências e fala de quando era beberrão e praticamente destruiu a família com isso, conta a possível transformação que Cristo operou não o permitindo embriagar-se mais independente da quantidade de bebidas ingeridas. Nada de muito interessante vem das experiências contadas, mas em certo ponto uma fala marca e deixa algumas dúvidas sobre as inclinações teológicas do autor: "quando você oferece uma dívida a Deus, a sua dívida se torna uma dívida dele, e Deus sempre paga suas dívidas!" (p.68).

Após algum tempo na congregação que ele aceitou a Cristo e passou a frequentar, há um comentário interessante: "Eu havia descoberto que uma das doutrinas continuamente enfatizadas na Missão (da África do Sul Fé Apostólica) era a da cura divina." (p. 69). Esse pensamento é expresso para ressaltar a experiência de cura dele, bem depois no livro, durante, de uma asma que o afligia há vários anos. Durante este episódio de espera por cura da asma ele tem um desejo de ser o novo "John G. Lake", pregador pentecostal com ministério focalizado em curas e batismo no Espírito Santo, e usa o texto de MARCOS 11.23 para justificar que quando uma pessoa crer em qualquer coisa ela pode obter: "A promessa era tão grande que fez minha cabeça girar. 'Senhor', orei, 'se ninguém mais, nesta cidade, fez esta Bíblia ter vida desde que John G. Lake aqui esteve, permite-me, então, ser o primeiro a fazê-lo!'" (p.70-1).

Há um comentário do próprio autor sobre o que seria a experiência do batismo no Espírito Santo: "De repente, fui tomado pelo Espírito. Era algo estranho, algo assim como uma experiência 'fora do corpo', quando meu espírito parecia estar vendo dentro de outra esfera." (p. 79). A partir daí ele conta umas visões que teve, nada tão sensacional, mas sensacionalista. Há o relato dos dons que ele recebeu após ser batizado: fé, cura, profecia, conhecimento, línguas. Após outra visão há o relato do que se parece com o movimento de Benny Hinn, risos e louvor (p. 81).

Prosseguindo a leitura há um conflito interessante sobre a realidade da fé e os resultados imediatos (p. 84), o que se parece muito com o evangelicalismo moderno em sua ênfase absurda no imediatismo sobrenatural.

Ao que me parece a "chave hermenêutica" que impera a ideologia de todo o escrito está em HEBREUS 11.1, segundo o autor, "isto se tornaria o princípio-chave da emocionante vida de fé que Deus havia traçado" (p. 85).

Num momento em que ele "declarou a fé com ousadia" (p.86-7) ele se vira em oração silenciosa e diz: "Senhor, se falhares comigo agora, nunca mais falarei contigo". Pensei nos momentos em que ouvia alguns afirmarem poderem colocar Deus "na cadeira" e reivindicar cumprimentos de suas conclusões.

Num episódio de "risos no Espírito" ele conclui estar "ébrio do Espírito" (p. 99-100).

No seu chamado para o ministério integral há uma clara confusão sobre o que é secular e o que é religioso e quanto as formas de Deus manifestar-se na história humana. Como o próprio autor comenta, “quão facilmente as pessoas podem enganar-se no que diz respeito à orientação. (…) muitas pessoas correndo atrás de sombras e cometendo sérios enganos” (p. 113).

Penso, aqui, que o problema real na leitura é que há uma mistura de experiências comuns a todo crente em Deus com subjetivações de movimentos diversos na espiritualidade cristã, e o que muitos esperam ter ao dedicar suas vidas a Cristo.

Chegamos na parte da cura da asma, em um empolgante episódio de declarações e reivindicações (p. 122-9). Durante as falas lembrei de algo que aprendi: se você fala muito com Deus, orando, você é um bom cristão; se ouve a Deus, através da Bíblia, você é um bom leitor bíblico... agora, se ouve a vos de Deus diretamente a você, sugiro que procure ajuda pastoral ou clínica(!). Há o relato grego da visão da morte, na experiência dele de cura.

Há conclusões perfeitas, ao meu ver, como no entendimento do dom “palavra do conhecimento. Se eu compreendia corretamente esse dom, isso envolvia o 'conhecer' certos fatos por divina revelação” (p. 140).

“O grande número de conversões resultou não apenas da pregação da Palavra, mas também dos sinais e milagres que impressionaram profundamente as pessoas com o poder de Jesus”. Pensei automaticamente no que balizava o ministério dos apóstolos.

É interessante, embora originador de muitos problemas hermenêuticos, seu método de preparar sermões: “Simplesmente peço a Deus que me guie à passagem das Escrituras sobre a qual devo falar. Então, leio e releio aquela passagem até ter certeza de compreendê-la profundamente. Isso, mais oração fervorosa pedindo a unção de Deus no ministério dessa passagem, costuma produzir resultados.”

Outra percepção interessante que o autor apresenta é sobre profecia. “aprendi sobre a profecia foi a importância de testá-la. Sempre que eu falava a alguém profeticamente, orientava essa pessoa a agir com cautela. Continuo não acreditando que uma pessoa deva lançar-se afoitamente em alguma forma de ação apenas porque alguém profetizou que ela devia fazê-lo. (…) (1 Jo 4.1). Esperando pacientemente em Deus pela oração e observando calmamente as circunstâncias, podemos discernir quando uma profecia particular será cumprida e se de fato deve ser cumprida. (…) tive uma experiência que me ensinou outra lição acerca do ministério profético: a importância da consideração cuidadosa e da obediência controlada pelo Espírito por parte do ouvinte.” (p. 190).

Com o enredo acima, toscamente organizado por mim, admito, penso nas seguintes consequências: é complicado indicar para qualquer um tal literatura, ao meu ver, ela é a mais bela expressão do neopentecostalismo, com suas ênfases exacerbadas em coisas periféricas e, por mais que desejassem, como no enunciado, glorificar a Cristo, acaba mais exaltando o “vaso de barro”, na linguagem do livro, que o Oleiro Celestial. Há uma forte consideração para a cura, visões e reivindicações que, mesmo com a fala de ministrações mais simples da Palavra, com seus sermões somente orados, acabam nos incentivando a esperar o que não é propósito dos textos bíblicos revelar.

A dificuldade em se encontrar outras matérias relacionadas ao autor é outro fator preocupante, tendo em vista seu suposto envolvimento com a Missão da Fé Apostólica e seu grande ministério na África do Sul, alguns lugares na internet sugerem que o autor seja uma personagem construída e que seus relatos sejam catalogações de ministérios gerais que apareceram naquela parte do continente africano.

Sendo assim, desestimulo a leitura. E, caso seja para aumentar a fé dos leitores, aconselho a que voltemos estudar os próprios relatos bíblicos com comentários de servos da Palavra de quem tenhamos mais evidências históricas e que tenham testemunhos da comunidade religiosa cristã como expositores bíblicos eficazes e não “fazedores de milagres” como o que vi neste livro.


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