domingo, 15 de fevereiro de 2015

O Deus Amordaçado: Prefácio




Meu interesse no assunto do pluralismo surgiu a partir de vários tipos bem distintos de experiências. O primeiro é a sempre presente necessidade de entender sua própria cultura. Essa necessidade parece mais premente para aqueles que mudam de uma cultura para outra: a mobilidade deles os expõe a uma grande diversidade de percepções incitando-os, por fim, a se perguntarem o que faz com que seu próprio mundo "faça sentido". A necessidade de entender a própria cultura não é menos desafiadora para os que gostam de ler biografias e outros estudos históricos: à medida que formamos nossa opinião sobre os movimentos e períodos passados, começamos a especular o que as pessoas dirão um dia sobre nossa própria cultura e período da história. Claro que a percepção em retrospectiva é sobre-estimada: não é caracterizada nem um pouco pela acuidade que algumas pessoas lhe atribuem. Não obstante, a percepção em retrospectiva é muito mais acurada que o prognóstico sobre o futuro (a mais infame fantasia dos horóscopos e das ciências sociais); também é mais perceptiva que a maioria das avaliações do presente. No entanto, uma vez que vivemos no presentem ele é o que temos de tentar entender, independentemente de quanta luz tentemos derramar sobre o assunto a partir do passado. E o tema comum da grande maioria dos comentaristas que tentam definir a cultura ocidental do fim do século XX é o pluralismo. Assim, foi inevitável ser atraído pela vasta literatura sobre esse assunto e me encontrar lutando com esse tema.

O segundo tipo de experiência que me levou a pensar sobre esses assuntos surgiu da minha vocação como professor cristão. Ensino hermenêutica há muitos anos. Observei a hermenêutica mudar da arte e ciência da interpretação bíblica para a "nova hermenêutica" e para a desconstrução, com muitas paradas ao longo da jornada e muitas estradas laterais interessantes. Todos que refletem sobre essas coisas logo reconhecem as muitas formas do pluralismo contemporâneo ligadas a determinadas abordagens da hermenêutica. Um professor cristão não pode refletir muito sobre a primeira sem ler a última de forma mais ampla. A nova hermenêutica, como antídoto às declarações arrogantes do conhecimento positivista comum de um século atrás, é, de forma revigorante, comedida. Contudo, exatamente quando se espera que ela nos ensine humildade, ela se torna a ideologia predominante da nossa época. A nova hermenêutica nos ameaça com um novo totalitarismo ideológico que é fracamente alarmante em suas declarações e prescrições.

O terceiro tipo de experiência que me incitou a refletir sobre as características do pluralismo contemporâneo teve origem em minha vocação como pregador cristão. Por exemplo, hoje as missões em universidades devem lidar com abordagens e percepções de mundo substancialmente distintas de qualquer coisa que tive de enfrentar trinta anos atrás como estudante de graduação. Muitas dessa diferenças não são nada além da produção de uma forma ou outra de pluralismo, tanto no mundo acadêmico quanto na cultura como um todo.

Escrevo como cristão. Pergunto-me às vezes, em meu estado de espírito mais sombrio, e por alguns dos mesmos motivos, se a feia face daquilo a que me referi como pluralismo filosófico é a ameaça mais perigosa ao evangelho desde o surgimento da heresia gnóstica no século II. Parte do perigo surge do fato de que a nova hermenêutica e suas mais variadas ramificações não estão totalmente erradas: seria mais fácil censurar e criticar uma ideologia total e completamente corrompida. Mas outra parte do perigo deriva da dura realidade de que a nova hermenêutica e suas mais variadas ramificações, até o ponto em que consigo ver, estão com frequência profundamente erradas - e são tão populares que se tornam perniciosas. Suspeito que, em uma forma mais feliz, dar voz a essa suspeita soa austero demais - e a verdade, em todo caso, é que estou mal equipado para fazer esse julgamento. Além disso, o pós-modernismo provou ser um tanto bem-sucedido em minar o excesso de confiança do modernismo, e nenhum cristão ponderado pode ficar totalmente triste em relação a isso. Em todo caso, não se pode negar de forma razoável que os desafios contemporâneos são extraordinariamente complexos e dolorosamente sérios.

A complexidade do assunto deixa uma difícil escolha para um autor. Pode-se optar por um livro popular que pesquise de forma superficial uma grande quantidade de material ou optar por um livro profundo examinando uma pequena parte do assunto. Escolhi vaguear pelos dois caminhos simultaneamente: boa parte desse livro pinta com um pincel bastante abrangente, mas aqui e ali lido com aspectos particulares do desafio, pipocando abaixo da superfície a fim de tratar de algumas questões que me parecem mais urgentes ou talvez sejam menos bem avaliadas na literatura. Se alguma das páginas seguintes conseguir despertar alguns cristãos para a sensibilidade inteligente e cultural e para a fidelidade apaixonada pelo evangelho de Jesus Cristo ou se encorajar alguns descrentes ponderados a examinar mais uma vez os fundamentos e assim descobrir que Jesus é Senhor, ficarei profundamente agradecido.

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Devo falar algo sobre a estrutura deste livro. O primeiro capítulo apresenta o pluralismo em suas diversas formas, trazendo à tona muitos pontos que são explorados em detalhes mais adiante no livro. Assim, é inevitável que tenha havido algumas sobreposições entre o capítulo 1 e os capítulos posteriores, mas julgou-se que o ganho em ter um panorama geral valia o preço de repetições menores.

O título O Deus amordaçado foi usado pela primeira vez em um livro de Gavin Reid. Seu título completo era O Deus amordaçado: o fracasso da igreja em se comunicar na era da televisão (London: Hodder & Stoughton, 1969). Seu subtítulo explica o que Reid pretendia com o título. Meu uso das mesmas palavras, conforme os leitores descobrirão, tem dois sentidos. Eles também descobrirão que o Senhor, a despeito de todo nosso esforço para amordaçar Deus, ainda está aqui e não está em silêncio (como Francis Schaeffer costumava dizer).

 

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